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Forum de Estudantes de Biologia da Universidade do Porto


Gestão Conservação Biodiversidade Florestas Mediterranicas 1

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Varicela

Número de Mensagens : 853
03062009

Gestão Conservação Biodiversidade Florestas Mediterranicas 1

Mensagem por Varicela

http://naturlink.sapo.pt/article.aspx?menuid=3&cid=4784&bl=1&viewall=true#Go_1 com fotos

PARTE 1

Gestão e Conservação da Biodiversidade de Florestas Mediterrânicas: o caso dos Sobreirais da Serra do Caldeirão Conheça um projecto sobre a gestão de sobreirais da Serra do Caldeirão, que procurou conciliar parâmetros críticos por vezes dificilmente compatíveis, como a minimização do risco de incêndio e a conservação da biodiversidade, valorizando económica e socialmente o sistema.

INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, as preocupações sociais e ambientais relativas aos ecossistemas do planeta e em particular à gestão das florestas mundiais, provocaram alterações significativas na percepção do papel das florestas. Em consequência, a gestão florestal sustentável é hoje considerada uma componente fundamental do desenvolvimento sustentável global, sendo normalmente entendida como a administração e o uso das florestas de uma forma e a um ritmo, que mantenham as suas biodiversidade, produtividade, capacidade de regeneração, vitalidade e potencial para realizar, no presente e no futuro, funções ecológicas, económicas e sociais relevantes aos níveis local, regional e global, não causando danos a outros ecossistemas.

Os povoamentos de azinheira (Quercus rotundifolia) e sobreiro (Quercus suber) da Península Ibérica são geralmente apontados como exemplos de sustentabilidade florestal. O caso dos povoamentos suberícolas é especialmente notável, uma vez que a produção de um bem de elevado valor económico como a cortiça, se conjuga com o desenvolvimento de outras actividades agro-silvo-pastoris e a manutenção de elevados níveis de biodiversidade. Não obstante, o progressivo abandono rural nestas áreas, conduz a situações de abandono da agricultura e pastorícia, as áreas cobertas por matos tornam-se dominantes nas paisagens suberícolas, com aumento do risco de propagação de incêndios. Verifica-se assim um incremento das procupações com os fogos florestais que, conjugadas com as disponibilidades de fundos comunitários para a beneficiação da floresta, tem vindo a justificar intervenções de larga escala de limpeza de matos. Para além da remoção de biomassa combustível, esta prática silvícola é por vezes conduzida com o intuito de aumentar a produção de cortiça por diminuição da competição das árvores com os arbustos.

Apesar dos seus potenciais benefícios, estas práticas podem ter efeitos ecológicos nefastos sobre a floresta, simplificando a estrutura do ecossistema, reduzindo a biodiversidade, favorecendo plantas oportunistas, limitando a regeneração natural e provocando a erosão do solo. Em resposta a estas questões, foi desenvolvido o projecto financiado pelo IFADAP no âmbito do Programa Ago, Medida 8.1, intitulado “Gestão da vegetação em paisagens suberícolas da serra algarvia para redução de riscos de incêndio, valorização sócio-económica e conservação da biodiversidade”, bem como o projecto fianciado pela DGRF intitulado “Quantificação de Comunidades de Aves Invernantes e de Fungos Ectomicorrizicos na Serra do Caldeirão” durante os quais foram estudados os efeitos da gestão do subcoberto na conservação da biodiversidade à escala da parcela através da medição de diversos bioindicadores, incluindo a vegetação herbácea, arbustiva e arborea, as comunidades de macrofungos (cogumelos), de macrolepidópteros diurnos (borboletas) e de aves, cujos resultados aqui se apresentam.

MÉTODOS
Área de estudo
O estudo foi desenvolvido na Serra do Caldeirão (Algarve) numa área de cerca de 30.000 ha localizada entre 200-580 m de altitude em torno da vila do Barranco do Velho, numa das principais regiões suberícolas de Portugal. A área escolhida tem um elevado valor ecológico, estando incluída no Sítio de Importância Comunitária da Serra do Caldeirão (PTCON0057), e integrando a Rede Natura 2000 ao abrigo da Directiva 92/43/CEE, o que coloca maior exigência na compatibilização da produção florestal com a conservação da biodiversidade.

Design experimental
O estudo foi baseado no método de substituição do tempo no espaço, utilizando uma sequência cronológica de 48 parcelas de sobreiral (com cobertura de sobreiro superior a 30%) com 0 e 70 anos decorridos após a última limpeza mecânica do subcoberto. A selecção das áreas de amostragem foi efectuada através de uma amostragem aleatória estratificada 8 parcelas homogéneas de sobreiral (1 ha) dentro de 6 classes de idade, não ardidas desde 1990. A idade efectiva do subcoberto de cada parcela (anos) e a frequência de limpeza a que foi sujeita (número de limpezas por década) foram estimadas com base em análise de fotografias aéreas ortorrectificadas e georreferenciadas de 1958, 1972, 1985, 2002 combinadas com visitas ao campo em 2004 e inquéritos aos proprietários.

Parâmetros de biodiversidade
Amostragem de vegetação
A vegetação das 48 parcelas de sobreiral foi caracterizada ao nível dos estratos arbóreo, arbustivo (entre Novembro de 2004 e Março de 2005) e herbáceo (em Maio de 2005). Em cada parcela, foi definido transecto principal de 100 m ao longo do qual foram dispostos quadrados de amostragem de 20 x 20 m em lados alternados do transecto, distanciados aproximadamente de 22 m. Em cada quadrado todas as espécies com porte arbóreo (DAP≥6 cm) foram identificadas e medidas de acordo com os parâmetros do Inventário Florestal Nacional. Ao longo do mesmo transecto, foram dispostos transectos perpendiculares de 20 m distanciados de cerca de 22 m; ao longo dos quais foram medidas as intersecções das copas de todas as espécies arbustivas (DAP<6 cm) com o transecto. Adicionalmente, foram estabelecidos dois quadrados de 10x10 m em lados alternados do transecto de 20 m, onde foi feita uma estimativa visual da cobertura por cada uma das espécies lenhosas dominantes, considerando a seguinte estratificação vertical: 0-0.2 m, 0.2-1 m, 1-2 m, 2-4 m, 4-8 m, 8-16 m, >16 m). Por fim, a amostragem das plantas herbáceas teve por base a divisão das parcelas em quatro quadrantes, e a inventariação das espécies presentes e estimativa do seu grau de cobertura em círculos com 2 m de raio (12.6 m2) colocados no centro de cada quadrante. As espécies foram em geral identificadas no campo, tendo contudo sido herborizado algum material para confirmar identificações ou para uma análise mais detalhada de grupos taxonómicos particularmente complexos.

Amostragem de cogumelos
As amostragens de macrofungos (cogumelos) nas 48 parcelas de sobreiral foram efectuadas entre o início de Novembro de 2005, pouco tempo após as primeiras chuvas outonais, e meados de Janeiro de 2006, abarcando o principal período de frutificação dos cogumelos. As amostragens decorreram apenas uma vez em cada parcela ao longo do transecto principal com 100 m. Em cada caso, os carpóforos (ou grupo de carpóforos) foram detectados a partir do transecto, registando-se a sua identidade taxonómica, número e distância perpendicular ao transecto. Em muitos casos, foram recolhidos exemplares para identificação ou confirmação da identificação em laboratório. Os carpóforos não identificados foram classificados em termos de morfoespécies, adoptando um procedimento vulgar neste grupo.

Amostragem de borboletas
A caracterização das comunidades de borboletas presentes nas 48 parcelas de sobreiral decorreu em cinco períodos distintos (Junho-Julho, Agosto e Setembro de 2005 e Abril e Maio de 2006). Cada amostragem consistiu na realização de percursos pedestres com trajecto irregular realizados a partir de um dos vértices da parcela com duração de 10 minutos, procurando abranger toda a área delimitada. Durante cada percurso, todas as borboletas detectadas num raio de 5 m foram identificadas e contadas. Foram também anotados os factores ambientais e o tipo de coberto arbustivo. Nos casos em que não foi possível a identificação durante o voo, os indivíduos foram capturados com rede e soltos após identificação.

Amostragem de aves
As comunidades de aves de foram amostradas com base em contagens pontuais de 15 minutos realizadas do ponto central de cada uma das 48 parcelas de sobreiral, duas vezes na Primavera (Abril-Maio e Junho 2005) e duas vezes no Inverno (Dezembro 2005 e Janeiro 2006). As duas contagens de Primavera permitiram acompanhar a época de nidificação dos indivíduos residentes e dos migradores trans-sarianos. As duas contagens de Inverno foram desenhadas para amostrar dois períodos contrastantes em termos de disponibilidade de frutos (principalmente de medronho). As amostragens foram efectuadas ao início da manhã e ao final do dia, durante os períodos de maior actividade das aves. Durante cada amostragem, todas as espécies de aves vistas ou ouvidas foram registadas, anotando também a distância de detecção a cada ave e o seu comportamento. Apenas as observações realizadas com aves detectadas a menos de 100 m foram consideradas para as análises. Foram também excluídas das análises espécies com actividade maioritariamente nocturna como a coruja-do-mato (Strix aluco) e a galinhola (Scolopax rusticola), e espécies com cuja actividade é dificilmente relacionada com variáveis da parcela como a cegonha-branca (Ciconia ciconia), gaivotas (Larus spp.), aves de rapina, andorinhões (Apus spp.), andorinhas (Hirundo spp. e Delichon urbica). No Inverno, os bandos de aves a voar por cima das copas das aves foram também excluídos uma vez que correspondem a movimentos a larga escala de, e para, os locais de abrigo.

RESULTADOS E DISCUSSÃO
Vegetação
As limpezas mecânicas do subcoberto constituem perturbações significativas nas componentes estruturais e composicionais das florestas mediterrânicas, as quais têm efeitos na vegetação que prevalecem ao longo de várias décadas após perturbação, particularmente ao nível dos estratos arbóreo e arbustivo (Figura 1). Quanto às comunidades herbáceas, estas surgem momentaneamente favorecidas pelas limpezas, atingindo valores de cobertura e riqueza específica mais elevados em parcelas muito recentemente limpas. A frequência com que as limpezas ocorrem surge também aqui como um factor que influencia a estrutura e composição da vegetação.

Nas florestas onde a exploração da cortiça é uma actividade regular, sujeitas a mais de uma limpeza do subcoberto por duas décadas, há lugar para um estrato arbóreo pobre, dominado por sobreiro e um subcoberto pouco estruturado e pobre em espécies, dominado por arbustos de crescimento rápido e com propagação por sementes (Figura 1) como a esteva (Cistus ladanifer), o estevão (Cistus populifolius), o tojo-molar (Genista triachantos) e o rosmaninho (Lavandula stoechas). Estes resultados reflectem a especialização da gestão florestal destas áreas na produção de cortiça, o que resulta no corte de pequenos sobreiros e a eliminação de outras espécies lenhosas durante as operações de limpeza, explicando assim a reduzida riqueza arbórea. Adicionalmente, a limpeza mecânica do subcoberto envolve a eliminação da parte aérea e subterrânea das plantas reduzindo o sistema radicular das plantas de regeneração vegetativa impedindo-as assim de rebentar; nestas condições as espécies pioneiras surgem de bancos de sementes no solo as quais conseguem colonizar a área livre de competição. De facto, a frequência de perturbação apenas afecta as espécies de recuperação lenta após limpeza do subcoberto mas não as espécies pioneiras.

Nas parcelas onde o subcoberto tem entre 20 e 50 anos, é possível encontrar já um estrato arbóreo mais rico ainda que poucas mais espécies arbóreas ocorram para além do sobreiro (Figura 1). O subcoberto destas parcelas é já no entanto muito denso e diverso, onde as espécies de crescimento rápido que dominavam nas parcelas limpas há menos tempo começam a ser substituídas por espécies de crescimento mais lento, de regeneração vegetativa, como o medronheiro (Arbutus unedo) e a urze-branca (Erica arborea), originando uma elevada heterogeneidade vertical (Figura 1). Por fim, nas florestas com subcoberto muito antigo, abandonadas há pelo menos 50 anos, há lugar para um estrato arbóreo mais rico, onde o sobreiro ainda dominante é acompanhado de medronheiro e urze-branca, os quais atingem a densidade máxima. O subcoberto continua a apresentar uma elevada cobertura de arbustivas, entre as quais espécies de elevadas dimensões como é o caso do medronheiro e urze-branca, que ganham importância, conduzindo a que todos os estratos de altura surjam bem representados.

CONTINUA NA PARTE 2
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