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Serras de Valongo - um património natural a descobrir

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Varicela

Número de Mensagens : 853
03082011

Serras de Valongo - um património natural a descobrir

Mensagem por Varicela

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Serras de Valongo - um património natural a descobrir e conservar






Localizadas a poucos quilómetros da cidade do Porto e repartidas entre os concelhos de Valongo, Gondomar e Paredes, as chamadas serras de Valongo ocultam nas covas mais profundas e nas cristas mais desérticas plantas e animais raros e magníficos.


Às portas da cidade de Valongo e do grande Porto, entre cerros e vales alcantilados, erguem-se as “serra de Valongo”, lugar ermo de aldeias esquecidas, onde a natureza logrou contornar a acção destruidora do Homem, ocultando nas covas mais profundas ou nas cristas mais desérticas, animais magníficos e plantas raras e únicas.

Localizadas a pouco mais de 6 km da cidade do Porto e repartidas entre os concelhos de Valongo, Gondomar e Paredes, as denominadas “serras de Valongo”, constituídas por uma série de elevações orientadas na direcção NW-SE e formadas essencialmente por cristas de rochas quartzíticas que correspondem a uma dobra anticlinal, tombada para ocidente – Santa Justa (367 m), Pias (385 m) e Castiçal (324 m) – dão corpo a um maciço montanhoso de grande valor natural e paisagístico. Este é caracterizado pela presença do rio Ferreira (o maior curso de água da região incluído na Bacia Hidrográfica do rio Sousa, que na área das “serras de Valongo” corre num vale encaixado onde se evidenciam algumas gargantas apertadas, como no Alto do Castelo e nas Fragas do Diabo) e por um complexo sistema de fojos (galerias subterrâneas que descem a dezenas de metros de profundidade, correspondentes a filões de quartzo, desmontados por trabalhos de mineração, durante os quais se extraíram grandes quantidades de ouro, nomeadamente durante o período da ocupação romana), minas, pequenas nascentes e linhas de água, que criam condições particularmente favoráveis para a herpetofauna associada a ambientes húmidos, destacando-se a presença de um interessante conjunto de espécies endémicas da Península Ibérica: o lagarto-de-água (Lacerta schreiberi), o tritão-de-ventre-laranja (Triturus boscai), a rã-ibérica (Rana ibérica), e a salamandra-lusitânica (Chioglossa lusitanica), um curioso anfíbio exclusivo do noroeste ibérico, considerada uma espécie “Insuficientemente Conhecida” pelo Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Igualmente relevantes no contexto dos vertebrados identificados para este espaço montanhoso, apesar da progressiva degradação dos seus habitats naturais a partir da década de 1970, são as comunidades de aves e mamíferos. E se em termos de avifauna a listagem ainda é relativamente extensa e a abundância proporcional, salientando-se a presença de algumas espécies de aves listadas no Anexo I da Directiva Aves (79/409/CEE), como o guarda-rios (Alcedo atthis), a cotovia-pequena (Lullua arbórea) e a felosa-do-mato (Sylvia undata), e ainda de algumas aves de presa (nocturnas e diurnas), como a águia-de-asa-redonda (Buteo buteo), o peneireiro (Falco tinnunculus), a coruja-das-torres (Tyto alba), a coruja-do-mato (Strix aluco) e o mocho-galego (Athene noctua). No que diz respeito à mamofauna, verifica-se um acentuado declínio em algumas populações, designadamente entre determinadas espécies de mustelídeos, como a lontra (Lutra lutra) ou o toirão (Mustela putorius), provavelmente devido ao aumento exponencial de factores de perturbação causados por acção antrópica nas áreas, até aqui, mais isoladas das “serras de Valongo”.






No entanto, e pese embora diversos problemas em termos de conservação do património natural, o valor ecológico deste espaço montanhoso encontra-se bem vincado pela sua inserção na rede europeia do Projecto Biótopos CORINE, pela criação, nas serras de Santa Justa e Pias, do Parque Paleozóico de Valongo (PPV) – o PPV é, de resto, a face mais visível da implementação de dois Projecto LIFE, envolvendo a Câmara Municipal de Valongo, como entidade promotora, e a Faculdade de Ciências do Porto, através dos seus departamentos de Geologia, Zoologia, e Botânica, e o FAPAS como entidades colaboradoras, dos quais resultaram, para além da criação do PPV no sentido de preservar as jazidas fossilíferas de Valongo, em particular as trilobites, a inventariação do património natural, com realce para a flora e para os anfíbios, a mapeação das áreas ambientalmente mais valiosas e/ou sensíveis e o planeamento de acções a empreender pela autarquia de Valongo para a preservação dos valores ambientais desta área montanhosa – mas também, e sobretudo, pela inclusão de 2553 ha deste espaço montanhoso na 1ª Fase da Lista Nacional de Sítios da Rede Natura 2000, sob a designação de “Valongo”, ao abrigo da Directiva Habitats (92/43/CEE).

Dos vários biótopos das “serras de Valongo”, os fojos merecem uma referência muito particular, não tanto por constituírem testemunhos históricos que atestam a presença e actividade industrial romana nesta região do território português entre os séculos I a. C e V d. C., como se verifica pelos vestígios arqueológicos, sobretudo utensílios de utilização no trabalho de mineração, como lucernas, vasos de cobre, etc., encontrados no interior de algumas destas minas, mas sobretudo por acolherem um conjunto único de pteridófitos (fetos), albergarem uma importante população de salamandra-lusitânica, e constituírem locais de abrigo fundamentais para algumas espécies de Quirópetros cavernícolas, nomeadamente o morcego-de-ferradura-grande (Rhinolophus ferrumequinum) e o morcego-de-ferradura-pequeno (Rhinolophus hipposiderus), ambas espécies consideradas “Em Perigo”.






Para além dos fojos, destaca-se de entre o conjunto de habitats prioritários, incluídos no Anexo I da Directiva Habitats, a área do vale do rio Ferreira, na zona de Couce. Com efeito, trata-se de um local particularmente relevante, quer em termos de património botânico, salientando-se, de entre as comunidades permanentes, as formações palustres, onde vegetam várias espécies de plantas carnívoras, as formações ripícolas, como os choupais (Populus alba), os salgueirais (Salix alba), e os freixiais (Fraxinus angustifolia subsp. angustifolia), e os bosquetes mistos de carvalho-roble (Quercus robur), sobreiro (Quercus suber) e pinheiro-bravo (Pinus pinaster), particularmente exuberantes nas bordaduras das áreas de cultivo, onde ainda é possível encontrar pequenos núcleos de azevinho (Ilex aquifolium), quer em termos de ictiofauna, já que o rio Ferreira alberga um conjunto valioso de espécies piscícolas, entre as quais alguns peixes listados no Anexo II da Directiva Habitats, como a boga (Chondrostoma polylepis) e o bordalo (Rutilus alburnoides), endemismos ibéricos, ou o ruivaco (Rutilus macrolepidotus), um endemismo português.

Plantas carnívoras de Valongo

Das várias espécies de plantas carnívoras que vegetam na área deste maciço montanhoso, a maioria é característica das zonas húmidas ou pantanosas, como acontece com as orvalhinhas (Drosera rotundifolia e Drosera intermédia) e a pinguícola-lusitânica (Pinguicula lusitanica), espécie que costuma surgir associada às orvalhinhas, uma vez que possui as mesmas exigências ecológicas. Porém, nas charnecas secas e xistosas sobranceiras ao vale de Couce, é possível encontrar ainda uma outra espécie de planta-carnívora, esta bem mais rara e altamente ameaçada: o pinheiro-baboso (Drosophyllum lusitanicum). Trata-se de um endemismo ibero-marroquino de distribuição altamente localizada em Portugal. Possui folhas verdes alongadas cobertas por pêlos glandulosos vermelhos, recobertos por mucilagem. Na época da floração ostenta flores de pétalas grandes e amarelas que exalam um odor característico a mel, muito eficaz na atracção de insectos. Contudo, apesar de constituir um dos ex-libris ambientais deste maciço montanhoso, tal parece não obstar à ameaça de extinção que sobre ela paira. De facto, alguns dos preciosos e reduzidos núcleos desta espécie conhecidos para as “serras de Valongo” têm sido de tal modo afectados – actividade florestal intensa e desregrada, com recurso, sobretudo, à monocultura do eucalipto (Eucalyptus sp.); sucessivos fogos florestais; deposição de entulho; perturbação humana (actividades todo-o-terreno, etc.); pressão urbanística – que se crê estarem actualmente em vias de desaparecer nesta região.






A salamandra-lusitânica

A salamandra-lusitânica é um pequeno e singular anfíbio (12 a 15 cm) da família Salamandridae, de pele muito brilhante e escura com duas listas douradas no dorso e olhos negros salientes, cujo elevado interesse científico e conservacionista advém do facto de possuir certas características que não se evidenciam em nenhuma outra espécie de salamandra da região peninsular, como seja a capacidade de libertar a cauda quando em perigo (autotomia) e, posteriormente, regenerá-la. De hábitos terrestres e actividade essencialmente nocturna, embora possa também ser observada durante o dia em locais de fraca luminosidade e muita humidade, a salamandra-lusitânica habita em zonas montanhosas (em altitudes inferiores a 1500 m), nas áreas de clima atlântico, com reduzida influência mediterrânica ou continental e elevada pluviosidade (precipitação anual superior a 1000 mm), junto a ribeiros de água corrente com farta vegetação ribeirinha, sobretudo quando estes se localizam nas proximidades de represas, minas ou cavidades naturais. Alimenta-se de insectos, aracnídeos e moluscos de pequenas dimensões. Endémica da Península Ibérica, em Portugal a espécie ocorre na região montanhosa noroeste, tendo como limite sul da sua área de distribuição, o rio Tejo. Na área das “serras de Valongo” a espécie é relativamente abundante, embora seja de difícil observação, uma vez que habita, sobretudo, as galerias do interior dos fojos e as minas de água. Além disso, e como resposta a condições ambientais desfavoráveis (excesso de calor e baixa humidade durante o Verão e temperaturas baixas durante o Inverno), os indivíduos desta espécie podem passar por longos períodos de inactividade, o que torna ainda mais difícil a sua detecção, uma vez que, nessas alturas, tendem a refugiar-se no interior de cavidades naturais, em busca de protecção.





Os fetos de Valongo

As peculiaridades geoclimáticas das “serras de Valongo” permitiram a sobrevivência, até aos nossos dias, de um conjunto único de espécies de pteridófitos que, pela sua raridade, se revestem de elevado valor conservacionista. Os fojos e um pequeno troço do vale do rio Ferreira são os únicos locais do nosso país onde é possível encontrar algumas dessas espécies protegidas: como a Culcita macrocarpa, um feto ripícola, considerado uma verdadeira preciosidade pelos botânicos, cujos únicos núcleos conhecidos vegetam nos respiradouros e galerias das antigas minas auríferas romanas; a Trichomanes speciosum, uma relíquia paleotroplical que hoje se encontra confinada a alguns locais húmidos e pouco iluminados da serra de Santa Justa, apesar de, em tempos, ter sido também referida para a serra de Sintra, onde parece ter-se extinguido; e a Lycopodiella cernua, um pequeno feto de aspecto arborescente, que tem nos terrenos alagadiços e parte inundada dos caminhos próximos do rio Ferreira, o único local conhecido de ocorrência em toda a Europa continental. Para além destas espécies, vale a pena realçar igualmente a presença da Dicksonia antartica, um feto arbóreo originário da Austrália e Nova Zelândia, que tem nesta região a única população naturalizada que se conhece em Portugal, e ainda a ocorrência da espécie Dryopteris guanchica, um pteridófito macaronésico muito raro em Portugal, que apenas vegeta em pequenas ravinas húmidas e sombrias das “serras de Valongo”, Arga e Sintra.


As trilobites de Valongo

Ao percorrer as serras de Valongo é possível fazer uma “viagem no tempo”, observando cerca de 300 milhões de anos da história geológica do nosso planeta, uma vez que a sucessão estratigráfica permite aos visitantes pisar terrenos formados desde o Précâmbrico/Câmbrico (com aproximadamente 570 milhões de anos) até ao Carbonífero (com cerca de 280 milhões de anos). Nesta jornada ao passado da história geológica da região, merecem especial atenção as jazidas fossilíferas, que serviram de mote à criação do Parque Paleozóico de Valongo. Dentre os vários fósseis que podem ser encontrados por estas paragens, destacam-se os das trilobites, organismos marinhos pertencentes ao grupo dos Artrópodes, que viveram ao longo de milhões de anos, desde o período Câmbrico (570 milhões de anos) até à sua extinção no final do Pérmico (há cerca de 230 milhões de anos).






Bibliografia

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Teixeira, J., Sequeiro, F., Alexandrino, J. e Ferrand, N. (1998). Bases para a conservação da Salamandra-lusitânica, Chioglossa lusitanica. I.C.N. Lisboa.


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